segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

O cavaleiro andante

Em Irará nasce um tom dissonante
um tom eruditamente simples,
chamado de Zé
Capaz de colocar em choque
os clérigos, os doutos e magistrados
os éticos, trabalhadores e indignados
os céticos, retirantes e conformados.
Esse tom desmente a mente do gene,
desvirtua-se num orgasmo invertido
lava alma na lavanderia
nos retorna a Nave Maria.
Do concreto ao transcendental,
estudioso do samba batido na massa
faiscante esmeril verde amarelo
estudado no pagode das operetas do congresso nacional,
nas lacunas da censura que deixa rastros de seu fede e defere
[movimento.
Do segregamento atolado das musas libertas
do petisco de visgo nascente
ao grau máximo do homo sapiens.
A importação das gravatas enforca e
A exportação da bossa tropical emancipa.
Da enceradeira capacete ao melódico.
Do violão de guerra ao fuzil introdutório.
Todos os olhos se voltam a um,
Todos os homens evoluem em um.
A prostituição infantil barata
se faz como o macaco que bate pedras,
e nesse mesmo tempo, procura um chip que desligue
o companheiro da tal globarbarização.
Todos os olhos, todas as mãos, todas as cores,
não batam palmas, não ovacionem seu espetáculo...
Só entrem nesse transe, nesse tom dissonante
agucem a percepção, e sigamos avante
em coro como ele mesmo pede,
ao Zé: o cavaleiro andante!


Obs: dedicado ao músico, cantor, pensador e grande compositor brasileiro Tom Zé, por que o Tom não desistiu de lutar, chegou aos 74 anos de luta e militância, foi perseguido pela censura, sofreu inveja dos compositores da época, caiu num ostracismo de 15 anos e continuou sua caminhada, sem esmorecer, voltou mais forte ainda, enfrentou os elistismos na Europa, derrubou o branco civilizatório em Montreaux, combateu a igreja e o Papa em tv aberta, cantou a burrice nacional, rasgou terno e questionou em plena ONU, combateu políticos renomados em canções e em discursos, destroçou o companheiro Bush, debateu a prostituição infantil e todo segregamento da mulher em suas obras, frutos da Globarbarização. E nós: todos aqui parados!

3 comentários:

julio miragaia disse...

Tom Zé é o cara. rsrsrs. sem sombra de dúvidas consegue fazer uma música de boa qualidade sem perder a boa e necessária crítica aos governos e demais podres poderes. acho sempre difícil tentar fazer homenagens a artistas, por isso que talves nunca tenha conseguido escrever algo sobre. Fizeste isso muito bem nesse poema Fábio. Estou tel inkando no meu desuniverso. obrigado pelos comentários. estás no twitter? mande o endereço se estiver. abços cara.

Lulih Rojanski disse...

Fábio, o poema e o texto que o seguem são super fortes. Esta forma de admiração que tens pelo Tom Zé é também admirável. Nâo é aquela coisa superficial do mero fã: é o autêntco reconhecimento do tamanho do cara.
Maravilhoso!
Um abração.

ElderF. disse...

Conheço poucas músicas do Zé. Nunca me interessei pela história dele, asneira minha, costume bobo, costumo louvar mais o artistico, esqueço o pessoal, talvez seja a decepção de algumas personalidades e que por consequência acabam influenciando no gosto.
Mas o Tom Zé é bom, musica seletiva, elitista por vezes, às vezes excludente, e de vez em outra me exclui.
Algumas escuto, escuto e escuto e não entendo nada, embora o esforço, também acontece isso quando escuto Zeca Baleiro.

Boa poesia, bom blog, voltarei por aqui quando o tempo resolver ser meu amigo de novo.

abraços raros.